Em Samambaia, todo mundo conhece alguém que já foi vítima de roubo a celular

O centro da capital da República reflete uma realidade encontrada em todas as regiões administrativas do Distrito Federal: é difícil achar alguém que não tenha sido vítima de uma das ocorrências policiais mais comuns da atualidade: o roubo ou furto de celulares. Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), entre janeiro e agosto, 33.818 aparelhos foram alvo dos ladrões. A média é de 140 casos por dia. Mas o número pode ser maior, uma vez que nem todas as ocorrências são notificadas.
No feriado de sexta-feira (7/9), o Metrópoles esteve na Rodoviária do Plano Piloto para entrevistar personagens que já tivessem passado pela frustração de ter o celular levado por criminosos. E o resultado foi assustador: todas as 15 pessoas abordadas pela reportagem já tinham ficado no prejuízo ao menos uma vez devido à ação de bandidos.
Os casos se dividem entre furtos e roubos à mão armada. Muitas vezes, resultam em violência. Na última quinta-feira (6), por exemplo, um estudante de 14 anos foi esfaqueado ao reagir a assalto no Setor Sul do Gama. O bandido, armado com uma faca, abordou o jovem e exigiu os celulares dele e de uma amiga. Em 17 de agosto, um universitário foi espancado e levou uma pedrada na cabeça ao tentar recuperar o smartphone roubado em Taguatinga.
“Difícil é encontrar quem nunca teve um aparelho roubado.” Essa era a resposta mais comum das pessoas questionadas no principal terminal rodoviário de Brasília. Uma delas é a estudante e operadora de telemarketing Ingrid Ferreira, 17 anos.
A jovem estava voltando para casa, em Ceilândia, no meio da tarde, quando um bandido armado apontou um revólver para ela, pegou o telefone e fugiu correndo.
Eu estava com o celular no bolso quando o menino me roubou. Cheguei a fazer o boletim de ocorrência e bloquear o chip, mas nunca mais vi o telefone”, Ingrid Ferreira, estudante e operadora de telemarketing.
Cuidado redobrado
O caso de Ingrid se assemelha ao do porteiro Francisley Santos, 33 anos. Ele voltava a pé do Setor Hoteleiro Norte (SHN) durante a noite, com destino à Rodoviária, quando dois homens, um deles com uma faca, exigiram o aparelho. “Nesses casos, o que eu poderia fazer? Só entregar. Hoje tomo mais cuidado”, afirma.
Mãe de três filhos, dois deles adolescentes, a assistente social Mônica Melo, 38 anos, se mostra preocupada com a escalada da violência, inclusive próximo às escolas. A filha caçula, de 16 anos, foi assaltada justamente na volta do colégio.
“Ela fica o tempo todo no celular, aí o ladrão passou, apontou a arma e mandou ela entregar o aparelho. Eu aconselho, digo para tomar cuidado e não ficar usando na rua, mas nessa idade é difícil. A gente nem chegou a registrar a ocorrência, porque é impossível recuperar”, conta a mãe.
A organização dos criminosos
Não são apenas as pessoas físicas que ficam à mercê da ousadia dos bandidos. Os roubos e furtos a empresas têm sido frequentes no Distrito Federal. Investigações conduzidas pela Coordenação de Repressão a Crimes Patrimoniais (Corpatri), da Polícia Civil, apontam que quadrilhas têm se organizado para cometer assaltos nas principais lojas de shoppings e centros comerciais da cidade.
Grupos armados e agindo sob hierarquia passaram a ter predileção pelos celulares por conta da baixa desvalorização, liquidez e facilidade, tanto no transporte quanto no repasse dos aparelhos para os receptadores. Um cálculo simples fez crescer o interesse dos criminoso pelos aparelhos. Enquanto um carro popular roubado é revendido por um valor entre R$ 1,8 mil e R$ 2,5 mil, uma mochila com 10 aparelhos top de linha pode valer até R$ 60 mil.
O alto poder aquisitivo e a maior renda per capita do país fez do DF um harém para as organizações criminosas que se especializaram no roubo de celular. De acordo com Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), 3.121 pedidos de bloqueio foram feitos por usuários vítimas de criminosos de janeiro a agosto deste ano.
Na última quarta-feira (5), a Corpatri desencadeou uma operação que pôs atrás das grades integrantes de uma quadrilha que atuava no DF e em seis estados, roubando e furtando aparelhos celulares em shoppings e centros comerciais. A ação foi batizada de Edge.
Investigação minuciosa
Ao longo de um ano, investigadores da Corpatri mapearam, identificaram e monitoraram os integrantes de quadrilhas que assaltam as lojas de grandes operadoras de telefonia em shoppings do DF e de Goiás. Uma das ações mais audaciosas ocorreu em março deste ano em um centro comercial sofisticado da capital goiana.
Quatro homens e uma mulher participaram do crime. Enquanto um deles permaneceu no carro, o restante entrou no complexo. Um casal que pertencia ao bando foi designado para entrar na loja, render os funcionar e roubar a maior quantidade possível de celulares armazenados no estoque do estabelecimento.
O Metrópoles teve acesso exclusivo às imagens registradas por câmeras de segurança instaladas no interior da loja. O homem que aparece nas imagens é Misael Barbosa, que está preso. A mulher permanece foragida. Carregando mochilas, os criminosos renderam os funcionários, amarraram cada um deles e entraram no estoque. Em alguns minutos, dezenas de aparelhos foram levados.
De acordo com o delgado Tiago Carvalho, a quadrilha evoluiu ao longo dos anos. “A maioria dos presos estava há anos praticando crimes. Foram evoluindo nas práticas ilícitas. Um deles começou com furtos em lojas de perfumes em outro estado”, contou.
Operação Edge
Durante a Operação Edge, foram cumpridos 15 mandados de prisão preventiva e oito de busca e apreensão em Ceilândia, Samambaia e Santo Antônio do Descoberto (GO), no Entorno do DF. Somente em Brasília, o grupo cometeu sete crimes entre 5 de janeiro e 17 de fevereiro de 2018. Em Goiás, Minas Gerais, Tocantins, São Paulo, Bahia e Sergipe, foram contabilizados 38 ocorrências neste ano.
“Passamos meses para conseguir identificar cada um dos envolvidos, o modus operandi e as articulações criminosas. O investimento em recursos humanos e materiais é fundamental para continuamente se reprimir de forma eficaz essas organizações criminosas especializadas, e elas, de forma alguma, se instalarem e se fortalecerem no Distrito Federal”, disse o coordenador da Corpatri, delegado Marco Aurélio Vergilio de Souza.
Durante as investigações, que duraram cerca de sete meses, os policiais descobriram que os crimes não ocorriam de forma aleatória. De acordo com a Corpatri, os autores se reuniam para planejar os furtos, analisando e escolhendo os estabelecimentos que poderiam trazer mais lucro.
Conforme relatório da Divisão de Análise Técnica e Estatística da Polícia Civil, em 2016 foram constatados cinco roubos a lojas de telefonia em shoppings e centros comerciais no DF. O número subiu para 21 casos em 2017. Até maio de 2018, foram 11 casos, não havendo registros nos meses de junho e julho.
O outro lado
Procurada para falar sobre a incidência de roubos e furtos de celulares, a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social ressaltou que foi registrada queda de 13,4% entre janeiro e agosto de 2018 quando comparado ao mesmo período de 2017. Foram 33.818 aparelhos roubados ou furtados neste ano contra 39.073 no ano passado.
Segundo a pasta, para combater esse tipo de crime, a Polícia Civil do DF criou uma ferramenta on-line, chamada Fora da Rede, que permite o bloqueio imediato do aparelho em caso de furto ou roubo. Entre outubro de 2017 e agosto deste ano, 6.530 aparelhos roubados ou furtados foram bloqueados pelo serviço.
Já a Polícia Militar classificou, por meio de nota, que o roubo e furto de celulares são crimes “de oportunidade”. “Infelizmente, a PMDF não consegue ficar em todos os locais ao mesmo tempo para evitar esse tipo de caso, mas intensificamos o patrulhamento em regiões mais afetadas, ou seja, com maior registro de ocorrências”, afirmou a corporação.
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