Pela primeira vez, casamento comunitário celebra união homoafetiva no DF


A noite de domingo foi de amor e diversidade em Brasília. Pela primeira vez, em seis anos do projeto Casamento Comunitário do Governo do Distrito Federal, um casal homoafetivo oficializou a relação matrimonial. Com outros 63 casais, José Moura Júnior, 45 anos, e Wanderson Santana, 23 anos, participaram da 17ª edição do programa, que permite que casais com baixo poder aquisitivo regularizem o estado civil. Sob a temática de direitos iguais e da liberdade para cada um, a cerimônia no Centro de Convenções Ulysses Guimarães foi marcada pelos aplausos aos dois, que superaram preconceitos e conseguiram alcançar seus sonhos.

São quatro anos de relacionamento e dois morando juntos, em Ceilândia Norte. Por conta da situação financeira e do alto custo de um casório, perceberam que não conseguiriam alcançar o que queriam “dessa forma”. “Conseguimos de outra. E não me importo com isso, até porque o propósito disso tudo é o amor”, comenta José. Eles se conheceram no ônibus. José é rodoviário e conversava com Wanderson durante os trajetos. Wanderson era o mais interessado em formalizar o matrimônio e José se rendeu ao companheiro. O casal também achou importante efetivar a união por conta dos benefícios legais, como os previdenciários e de herança.
Mas até chegar neste dia de emoção, não foi fácil. O casamento estava marcado inicialmente para 27 de maio, mas precisou ser adiado por causa da greve dos caminhoneiros. Outro banho de água fria foi jogado nos dois: ao se inscreverem no edital, José e Wanderson foram discriminados pela servidora atendente. “Naquela hora, tínhamos desistido. Foi uma humilhação e uma falta de respeito enorme”, confessa José. Apesar das barreiras, o rodoviário conta que uma colega, que também trabalha na pasta, não deixou que ele se abalasse. “Ela levou a situação ao secretário de Justiça, Francisco Assis. A servidora foi exonerada e eles insistiram que participássemos”, diz. “Eu penso que, somente pelo amor, nós conseguimos superar a dor. E, com isso, juntos fomos mais fortes”, garante.

Wanderson não escondeu o nervosismo. Sempre foi um sonho formalizar a relação. Depois de todos os acontecimentos, inclusive após ouvir comentários preconceituosos de outros casais que estariam no evento, ele disse que é um dia especial e se sente lisonjeado de ser do primeiro casal homoafetivo inscrito no projeto.  “Foram lutas e batalhas grandes. Conseguimos. Não tem como não estar feliz”, repara.

Mas não foi só pelo casório que a noite de Wanderson foi especial. A iniciativa de participar da cerimônia comunitária também foi especial para seu irmão, Gregório Weliton Santana, 22 anos, que é fiscal de perdas. Ele namora a operadora de caixa Bruna Cristina Santos, 22 anos, há cinco anos, sendo que moram juntos há três. Nunca oficializaram o casamento por conta da condição financeira, que limita a organização do próprio evento. “Os dois (João e Wanderson) me disseram que queriam fazer o casamento e nos convidaram. Eu e a Bruna pensamos um pouco e aceitamos. Achamos que seria importante oficializar. E fazer isso ao lado do meu irmão é melhor ainda”, destacou.

No Casamento Comunitário, é comum a presença de casais que já estão juntos há muitos anos, mas que nunca tiveram condições financeiras de fazer a própria cerimônia. Nesta edição, porém, houve um caso incomum. Casados há 50 anos, o aposentado Francisco Mendes, 76 anos, e a dona de casa Anoninha Costa da Silva, 68 anos, decidiram renovar os votos depois de um desentendimento que provocou uma separação temporária.

Sem brigas

Hoje eles são apontados pela família e pelos amigos como um casal que não tem desavenças. “Nós temos um respeito muito grande um pelo outro. Então, não brigamos ou discutimos”, afirma Anoninha. “Por isso estamos aqui. Para formalizar nossa relação, que nunca parou oficialmente. É importante. É, com certeza, um dia de alegria. Se Deus quiser, vamos terminar a vida juntos”, diz.

A filha deles, a auxiliar administrativa Alcione Batista, 38 anos, diz que os pais são um exemplo. Isso porque, mesmo com 50 anos de casados, eles ainda se preocupam com o bem-estar da relação. “Eu nunca quis casar, mas, olhado assim para eles, bate uma vontade. É um casal muito firme, que se respeita muito e não tem desentendimento”, afirma. 

A proposta para casamentos comunitários começou em 2012 e já oficializou mais de 1,5 mil casais. Ainda sem data definida, o próximo edital será publicado no Diário Oficial do DF. Para participar, os interessados precisam apresentar comprovante de renda de até meio salário mínimo por pessoa ou até dois salários mínimos no total. 

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE
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