| Crédito: Foto: Paulo Estana |
Mais do que uma encenação da morte e ressurreição de Jesus Cristo, a Paixão do Cristo Negro, realizada no Distrito Federal desde 1997, construiu ao longo de quase três décadas um espaço de resistência cultural, formação cidadã e reflexão crítica sobre as desigualdades sociais.
Em 2026, o espetáculo volta a ocupar o Complexo Cultural Samambaia (DF), no Cineteatro Verônica Moreno.
A cidade de Samambaia, Região Administrativa do Distrito Federal, recebe no próximo dia 3 de abril a 23ª edição da Paixão do Cristo Negro, espetáculo que ultrapassa a tradição religiosa para se consolidar como uma das principais expressões culturais e sociais da periferia brasiliense.
Letícia Lins, diretora geral do projeto, destaca o caráter coletivo e afetivo do projeto. “A edição deste ano é a realização de um sonho”, afirma. Segundo ela, o espetáculo se sustenta pelo engajamento da comunidade.
“A Paixão é um trabalho totalmente voluntário. Tudo é feito com lágrimas, suor, amor e muito empenho. Esbarramos em muitos contratempos, como a falta de auxílio financeiro e de recursos materiais, mas será levantada com muito carinho por todos que se propuseram a estar conosco”, diz.
De acordo com a organizadora, a edição deste ano incorpora à narrativa bíblica questões como violência de gênero, racismo estrutural e direito à terra, que buscam dialogar com a realidade brasileira atual.
Leitura crítica e educação popular
Reconhecido oficialmente como evento do DF pela Lei nº 6.499/2020 e certificado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura em 2025, o projeto nasce e se desenvolve junto à própria história de Samambaia, marcada pela formação periférica, crescimento acelerado e carência histórica de políticas públicas culturais.
O processo de montagem do espetáculo teve início em janeiro, com a realização de oficinas formativas gratuitas nas áreas de teatro, voz, consciência corporal, dança, iluminação e maquiagem, promovidas no Complexo Cultural Samambaia. As atividades reuniram moradores da Região Administrativa interessados em integrar o espetáculo, consolidando um modelo de criação coletiva que articula formação artística e produção cultural.
A partir de março, o projeto entrou na fase de ensaios intensivos, com preparação cênica e construção dramatúrgica voltadas à apresentação.
Inspirado nos princípios da educação popular de Paulo Freire, no Teatro do Oprimido de Augusto Boal e em metodologias teatrais contemporâneas, o espetáculo propõe uma leitura crítica da figura de Cristo, associando seu sofrimento às experiências vividas pela população negra e periférica, historicamente marginalizada em vários lugares do mundo.
O elenco é composto majoritariamente por participantes das oficinas, além de artistas convidados do Distrito Federal, reforçando o caráter comunitário da iniciativa.
Cristo negro
De acordo com os organizadores do projeto, a escolha de representar um Cristo negro não é apenas estética, mas política. Ela dialoga diretamente com a realidade de Samambaia, onde a maioria da população é negra, e tem como objetivo reforçar a identificação do público com a narrativa. Ao longo dos anos, o espetáculo passou por diferentes formatos e espaços, indo de igrejas e ruas a palcos improvisados e cidades cenográficas, acompanhando as transformações urbanas e sociais da região.
Apesar de ser um projeto existente há quase 30 anos, a falta de financiamento público e apoio estrutural segue sendo um obstáculo para a continuidade da iniciativa, que neste ano depende de parcerias locais e do trabalho voluntário de seus participantes.
A apresentação será realizada em espaço fechado, com estrutura técnica de palco italiano no Cineteatro Verônica Moreno. A entrada é gratuita, mediante retirada antecipada de ingressos pela plataforma Sympla, com liberação prevista para o dia 2 de abril nas redes oficiais do projeto.
Serviço
Paixão do Cristo Negro
Data: 3 de abril
Horário: 19h
Local: Cineteatro Verônica Moreno – Complexo Cultural Samambaia
Entrada gratuita (retirada de ingressos na bilheteria)

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