80% dos lares brasileiros estão com dívidas


 

Enquanto as contas chegam, o brasileiro se afunda cada vez mais nas dívidas que parecem virar uma bola de neve. Este cenário ficou mais frequente nos lares do país em um cenário de juros altos e menor poder aquisitivo, como atesta o levantamento mais recente da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgado ontem. De acordo com o estudo, quatro em cada cinco famílias tinham alguma dívida no último mês de fevereiro, o que representa o maior nível desde o início da série histórica, em 2010.

O levantamento realizado mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que em fevereiro de 2026, 80,2% desses grupos possuíam alguma dívida, o que indica um aumento de 3,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Os dados divulgados ontem ainda revelam que a inadimplência voltou a subir em fevereiro, após três meses de queda. Nesse período, a taxa subiu para 29,6%, o que, na visão do presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, é um impacto direto do nível elevado da taxa de juros no país. Desde junho de 2025, a Selic permanece no maior nível em quase 20 anos, a 15% ao ano (a.a.).


"Embora o crédito seja um motor essencial para o consumo, o custo do dinheiro permanece proibitivo, criando um ciclo perigoso em que o aumento das dívidas é potencializado por juros altos que dificultam a amortização. Sem alívio consistente nos juros, a capacidade das famílias de limpar seus cadastros fica seriamente comprometida, o que acaba por frear o dinamismo do nosso comércio e serviços", destaca Tadros. 

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, embora o endividamento recorde assuste, o que preocupa mais a entidade é o nível elevado da inadimplência, que representa a parcela da população endividada que não consegue honrar com esses compromissos financeiros e ficam com o nome "sujo". 

De acordo com a pesquisa, o tempo médio de atraso dos pagamentos subiu para 65,1 meses, o que representa o nível mais alto desde o fim de 2024. Além disso, a parcela de consumidores inadimplentes por mais de 90 dias avançou para 49,5%, evidenciando que os atrasos estão cada vez mais longos. "O aumento do endividamento preocupa, não costumamos ver este nível, mas o crescimento da inadimplência preocupa ainda mais porque é mais um sintoma do estrago que este longo período de aperto monetário com a alta Selic provoca no orçamento das famílias brasileiras", analisa Bentes.

Para o presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), Reinaldo Domingos, o crescimento do endividamento das famílias reflete um cenário que já pode ser caracterizado como uma "epidemia de inadimplência" no país. "Esse movimento ocorre principalmente por um descompasso cada vez maior entre renda e custo de vida. Muitos brasileiros têm a sensação de que os salários permanecem os mesmos, enquanto os preços de itens essenciais, serviços e até do próprio crédito aumentam gradualmente", comenta.

Diante de uma pressão cada vez maior no orçamento, o presidente da associação explica que o crédito acaba sendo utilizado como uma solução imediata para manter o padrão de consumo, ou até mesmo para cobrir despesas básicas. "O problema é que grande parte dessas operações ocorre em modalidades com juros elevados, como cartão de crédito e empréstimos pessoais, o que acelera o processo de endividamento e aumenta o risco de inadimplência", acrescenta Domingos. 

A pesquisa da CNC mostra ainda que o avanço do endividamento atinge todas as faixas de renda da população. No último mês de fevereiro foi impulsionado majoritariamente pelas famílias de maior renda, que recebem acima de 5 salários mínimos. Inclusive entre as com renda superior a 10 salários mínimos, o endividamento saltou de 3,8% em relação ao ano anterior. Já na faixa dos mais pobres, onde a inadimplência castiga mais, o percentual de contas em atraso manteve-se elevado em 38,9%.


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