De Samambaia para os EUA, disseminando educação


Pela primeira vez, um projeto da capital federal foi selecionado em programa de liderança juvenil do governo dos EUA voltado para 36 países da América Latina e do Caribe. Ex-aluno da rede pública, Rubenilson Cerqueira (foto), idealizador do Galt Vestibulares, cursinho gratuito para alunos de baixa renda, pretende usar a oportunidade para encontrar meios de expandir a iniciativa, que atende 480 alunos por ano em Brasília, para o restante do país

Se Rubenilson Cerqueira, 28 anos, tem uma certeza na vida é de que a educação é plataforma de transformação de realidades e futuros. Idealizador do Galt Vestibulares, cursinho gratuito para seleções de acesso ao ensino superior direcionado a estudantes de baixa renda do DF, ele tem conseguido frutos muito positivos. A iniciativa começou há três anos e, hoje, reúne 110 voluntários (entre professores, psicólogos, administradores e diretores), atendendo a 480 alunos por ano na capital federal. Há três anos, o doutorando em estudos comparativos em educação pela Universidade de Brasília (UnB) dedica a maior parte do tempo ao cursinho. O esforço tem valido a pena: dos 240 alunos semestrais do Galt, 60% são aprovados em processos seletivos da UnB e de outras instituições de ensino superior. Rubenilson fez do empreendedorismo social resposta para as defasagens da educação básica pública, enfrentadas especialmente por quem vive em situação de vulnerabilidade  — dentro e fora do DF.

Há jovens do Entorno, da Bahia e de Minas Gerais que vieram morar na capital federal para estudar no cursinho e, hoje, compõem o quadro de alunos de cursos como medicina e engenharia de universidades federais. Agora, o trabalho também será conhecido internacionalmente: Rubenilson é o único representante de Brasília, selecionado entre candidatos do Brasil e de outros 35 países da América Latina e do Caribe, na edição de 2018 do Jovens Líderes das Américas (Young Leaders of the Americas Initiative, Ylai, em inglês), programa do governo norte-americano de capacitação em empreendedorismo. Ele, que é professor de geopolítica no Galt, foi semifinalista da seleção nas edições de 2016 e 2017 e não poderia estar mais satisfeito por ter conseguido a vaga em 2018. Em três edições, o Ylai contemplou 62 brasileiros. Esta é a primeira vez que alguém da capital federal se classifica na seleção. “Representar o DF em um programa internacional é uma honra, já que tem muita gente boa e capacitada participando”, comemora.

“A cultura do concurso público é muito forte em Brasília, então, conseguir um reconhecimento por causa do empreendedorismo social é uma quebra de paradigmas”, diz. Também é uma recompensa pessoal. “É uma realização para mim porque fui aluno de escola pública, em Samambaia, e sinto que estou representando todos os estudantes do ensino público que não tiveram recursos nem educação de qualidade. Quero mostrar que todos são capazes de alcançar seus sonhos, independentemente de história de vida, região onde moram ou condição financeira”, declara ele, filho de um pintor de automóveis e de uma auxiliar de serviços gerais. 

Graduado em relações internacionais pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e mestre em desenvolvimento, sociedade e cooperação internacional pela UnB, Rubenilson concluiu a educação básica no Centro de Ensino Médio (CEM) 304 de Samambaia Sul. O idealizador do Galt embarca em setembro para os EUA para viver uma jornada de ensino, trabalho e possibilidades de conseguir investimento. Serão 45 dias em solo norte-americano, participando de palestras, tutorias e colaborações para aprimorar os projetos e trocar experiências.

As expectativas de Rubenilson para a viagem são as melhores possíveis. “Não vamos só estudar, vamos ter um tutor que nos ajudará a mostrar o projeto para outras pessoas, não só para conseguir investimento, mas também para promover novas práticas, tornar o projeto mais escalável e replicável”, pontua. Uma competição fechará o programa, e o vencedor ganhará investimento no modelo de negócio.

Plano de expansão
Para expandir a abrangência geográfica do cursinho, a ideia de Rubenilson é utilizar a via digital. “Queremos nos tornar referência em cursinho popular e replicar o formato em outros lugares do país. Esse é o carro-chefe da nossa ida aos EUA”, revela. Durante o programa, o empreendedor social espera conhecer boas práticas nesse sentido. O Galt já serviu de inspiração para criação de outros cursinhos populares, como o INY Vestibulares, em Mato Grosso do Sul. “Estamos disseminando conhecimento no país”, destaca. Rubenilson também tem planos fora do mundo digital: captar recursos para investir no aluguel de uma sede própria do Galt no DF. “Nosso espaço atual é fruto de parceria com a Secretaria de Educação e o UDF, que cede salas para nós. Somos muito gratos pelo espaço, mas sabemos que temos de nos limitar às regras das instituições em que estamos. O desejo agora é de ter uma sede para ampliar o espaço e o número de pessoas que alcançamos”, pontua.

Saiba mais
Acompanhe o site ylai.state.gov para saber das próximas edições da seleção
Outros cursinhos comunitários no DF
Vestibular Cidadão: www.vestibularcidadao.com
Jovem de Expressão: jovemdeexpressao.com.br
Rede Empancipa: redeemancipa.org.br
Bora Vencer: www.crianca.df.gov.br

Participe
Quer estudar?
As inscrições para a primeira etapa do cursinho preparatório Galt estão abertas pelo site galtvestibulares.com.br até 17 de julho. Taxa: R$ 10. Quem pode participar: aluno ou ex-aluno de escola pública ou particular com bolsa integral.

Quer ser voluntário?
O cursinho recruta alunos de graduação ou graduados na área em que deseja atuar, que devem passar por um processo seletivo aberto de acordo com a demanda. Os voluntários não são remunerados. Acompanhe pelo site galtvestibulares.com.br.
Em dezembro de 2014, Rubenilson teve a ideia de criar um cursinho comunitário e chamou três amigos — Priscilla Dalledonne, Victor Esteves e Rodrigo Proença — para ajudar. O grupo decidiu criar um preparatório popular baseado em voluntariado. Na época, Rubenilson participou do Brasília sem Fronteiras, programa do Governo de Brasília, que lhe deu a chance de viajar aos EUA. Lá, aprendeu sobre empreendedorismo social e gestão de voluntariado. A primeira turma do Galt começou a ter aulas em fevereiro de 2015. “O diretor do Centro Educacional Gisno cedeu uma sala de aula. Começamos no turno noturno, com 35 alunos, e tivemos um índice de aprovação muito alto”, conta Rubenilson. Na segunda turma, no fim de 2015, dos 80 alunos, 60% foram aprovados. “Foi nessa leva que tivemos o primeiro aprovado de medicina.”

Os estudantes não pagam nada, a não ser uma taxa simbólica de R$ 10 para impressão e aplicação das provas da primeira etapa de seleção. “A prova aborda conhecimentos do ensino médio. Aqueles que se saírem bem no exame serão entrevistados”, descreve Rubenilson. Atualmente, as aulas ocorrem em salas cedidas no UDF e no Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação (Eape), da Secretaria de Educação. O Galt disponibiliza ainda reforço no contraturno escolar, atendimento psicológico, orientação profissional, educacional e de saúde mental, além de aulas de desenho técnico para aqueles que querem ingressar em graduações que exigem prova de habilidades específicas, como artes e arquitetura. 
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