Nesta época de férias escolares, não é difícil encontrar a garotada soltando pipa nas ruas. Mas, a brincadeira pode se tornar perigosa – e até fatal – se for combinada com o cerol. Na capital, pelo menos três tipos do material cortante representam risco: o de vidro moído, a linha chilena e o cerol feito com pó de ferro.
Embora haja uma lei distrital que proíbe o comércio e uso de pipa com cerol, a Secretaria de Segurança Pública não tem o controle da brincadeira. Em nota, a Polícia Militar informou que “depende de denúncia e/ou flagrante e da apreensão do material para análise química para confirmar se a composição é caracterizada como cerol”.
Em Ceilândia, o delegado-chefe da 19ª Delegacia de Polícia, Fernando Fernandes, investiga o uso de cerol. “Toda época de férias a gente tem uma incidência de casos de lesão corporal em virtude do uso do cerol. O que a principio é uma brincadeira de crianças, pode virar um problema”, aponta.
De acordo com o delegado, na região administrativa foram encontrados três tipos de cerol. “Existe o cerol chileno, que pode cortar até quatro vezes a mais do que o normal, feito de vidro. Ainda tem um que é feito com o pó de ferro e corta dez vezes mais. Além do risco à saúde do outro, ele ainda apresenta risco de eletricidade”, explica. “O troféu é derrubar a pipa de qualquer forma”, completa.
Fernandes explica que, neste primeiro momento, a Polícia Civil tem feito um trabalho educativo com crianças e adolescentes. “A gente passa e observa. Pedimos para abaixar a pipa, claro. Não chegamos cortando linha nenhuma. Quem estiver com o cerol, o chileno principalmente, estamos apreendendo, identificando os responsáveis e chamando a atenção. Tudo de maneira preventiva”, informa. Só na 19ª DP, havia 21 rolos de linhas chilenas.
A brincadeira, claro, não é feita apenas em época de férias. Por isso, depois da etapa educativa, o delegado garante que partirá para medidas punitivas. “Quem vende, nós vamos indiciar ou até mesmo prender em flagrante baseado na lei do consumidor: vender uma coisa imprópria, principalmente para crianças e adolescentes”, afirma. “Quem usa, podemos indiciar no artigo 132, que é expor perigo à vida ou à saúde de outro. Se acontecer lesão ou dano, a pessoa pode responder por um crime mais grave”, acrescenta.
Comércio ilegal
É possível encontrar lojas, como papelarias, vendendo a linha chilena. O Jornal de Brasília foi até um armarinho no Mercado Norte, no Taguacenter, e tentou comprar o produto, que estava escondido em um local onde só os vendedores têm acesso. Um carretel de 500 metros custa R$ 20, já um de mil metros sai por R$ 30. “Boa parte das chilenas está entrando no Brasil de maneira ilegal pelas fronteiras. Passa porque pensam que é uma coisa inocente, que não é nada demais”, alerta Fernandes.
Atração para todas as idades na QNL
Crianças, adolescentes, adultos e idosos: não tem idade para soltar pipa. No estacionamento da Feira Permanente da QNL, em Taguatinga, é possível encontrar homens e mulheres correndo de um lado para o outro, na tentativa de pegar os “papagaios” que caem do céu depois de terem suas linhas cortadas pelo cerol.
“Quando era criança eu brincava. Voltei a empinar pipa quando as minhas filhas nasceram”, conta a dona de casa Caroline Moreira Rodrigues, de 32 anos. Mãe de duas meninas de 8 e 5 anos, ela garante que ensina às garotas a brincadeira. “Não tem dessa de que é só para menino”, acrescenta.
Caroline estava com um grupo de 20 amigos no último domingo no estacionamento da feira. O encontro é para matar saudade, bater um papo e, claro, ver quem consegue derrubar mais pipas. Vale de tudo: desde o cerol até pipa transparente para o outro não ver de onde veio.
Risco assumido
O vendedor Felipe de Araújo, 27 anos, não tem medo de assumir que usa pipa com cerol. “Compro a pipa e já vem com a linha assim. Não tenho tempo de fazer a minha”, argumenta. Apesar dos riscos, ele pondera que procura soltar pipa em locais abertos.
“Venho sempre com os amigos no estacionamento da Feira Permanente da QNL. É grande e tem espaço. Aqui todo mundo sabe que as linhas têm cerol. Acho que ninguém usa sem cerol mais”, conta. No fim do dia, o resultado é o mesmo: “Todos os dedos machucados”, brinca. Mas esse é apenas um dos problemas, pois os acidentes com esse material podem ter consequências bem mais graves.
Saiba mais
O Corpo de Bombeiros Militar do DF recomenda alguns cuidados na hora de empinar pipa. De acordo com o capitão Wilson de Souza Mendes, o mais indicado para soltar o “papagaio” – como é popularmente conhecido – é em área aberta. “Como um campo de futebol ou parque, longe da área de fiação, porque pode acabar em um choque elétrico”, indica.
Para o oficial, a população deve ter consciência de que usar cerol pode causar dano sério na vida de alguém e até a morte.
“Recebemos vários relatos de crianças que se acidentaram”, conta. “Tem que ser uma brincadeira saudável e sempre com a supervisão de um adulto.”
“Recebemos vários relatos de crianças que se acidentaram”, conta. “Tem que ser uma brincadeira saudável e sempre com a supervisão de um adulto.”
Os motociclistas precisam de um cuidado a mais: o capitão recomenda a instalação de uma antena para barrar a linha. “Principalmente aqueles que usam a moto como instrumento de trabalho. A antena pode salvar vidas”, conclui.


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