Servidores estão assustados com epidemia na Papuda

O surto de doenças de pele que se alastrou nas unidades prisionais do DF tem preocupado órgãos públicos. Atualmente, 2.601 detentos estão contaminados com doenças como escabiose, impetigo, tínea e furunculose – 17% do total de internos. Um agente de custódia da Polícia Civil também contraiu a enfermidade.


Foi pensando nisso que representantes do Conselho Distrital de Promoção e Defesa de Direitos Humanos, Subsecretaria do Sistema Penitenciário, Secretaria de Saúde e Ministério da Saúde, além da deputada federal Érika Kokay, se reuniram para debater providências.

Como possíveis soluções, os presentes no encontro de ontem elencaram quatro medidas: os médicos intensificarão os atendimentos nos pátios; as famílias serão orientadas e poderão levar sabonetes de enxofre aos detentos; e o Ministério da Saúde, SSP e Secretaria de Saúde estão elaborando ações a curto, médio e longo prazo.
A doença de pele está presente em cinco das seis unidades do Complexo da Papuda: Penitenciárias do DF I e II, Centro de Internamento e Reeducação (CIR), Centro de Detenção Provisória (CDP) e Centro de Progressão Penitenciária (CPP). Apenas na Penitenciária Feminina (PFDF) não entrou na lista.
Segundo o coordenador-geral do Sistema Prisional, Celso Vagner, a situação está controlada na PDF-I e no CIR. “No CDP, o atendimento está mais lento, mas já tem equipe fazendo as triagens”, afirma.
No entanto, um relatório do Conselho de Direitos Humanos aponta detentos que estão esperando de três a cinco meses por atendimento. “Das celas visitadas, algumas com 40 internos, em um local que deveria acolher somente 12, apresentam 35 internos com aparente infecção”, conta o presidente do conselho, Michel Platini.
O relatório mostrou que os detentos não estão recebendo insumos de higiene, como escovas de dente, creme dental, sabonete e barbeador. “Eles compartilham até mesmo a pomada. A gente sempre viu, em nossas visitas, detentos com doença de pele. Mas é a primeira vez nessa quantidade”, acrescenta Platini.
O servidor infectado foi afastado de 24 a 31 de julho para tratamento com antibióticos. Segundo o presidente da Associação dos Agentes Policiais de Custódia da PCDF, Carlos Lima, o quadro clínico já apresentou melhoras. “Dificilmente ele pegaria essa doença em outro ambiente”, afirma Lima. Para ele, nunca houve nada parecido.
A preocupação assombra também os agentes penitenciários. “O sindicato orienta o uso de equipamentos de proteção, mas é impossível evitar o contato com os apenados. Solicitamos a criação de um núcleo de saúde aos servidores”, comenta o presidente do sindicato da categoria, Leandro Allan.
Versão oficial
De acordo com a Secretaria de Segurança, esses números não apresentam um surto, e não se deve afirmar que aumentou o número dos casos. “Isso porque a triagem foi realizada dia a dia pela Gerência de Saúde da Sesipe – composta por médicos, enfermeiros, entre outros profissionais. Com isso, os números iam sendo atualizados a cada avaliação”, alega, em nota. Ainda segundo a pasta, 14 mil detentos já passaram pela triagem e, após o diagnóstico, os médicos prescreveram a medicação necessária e ainda orientaram sobre higiene. “Agora, a equipe passa a avaliar os procedimentos a fim de constatar a eficácia do tratamento, que, em caso de negativa, será revisto”, afirma. As celas estão sendo higienizadas com creolina e os internos estão tomando o banho de sol diariamente por duas horas. As visitas continuam.
Ponto de vista
As doenças de pele que contagiaram detentos na Papuda são enfermidades comuns e não graves. De acordo com o infectologista Gilberto Santos Nogueira, uma das principais causas das doenças é o aglomerado de pessoas em ambientes úmidos. “O contágio se dá pelo contato direto, de pessoa para pessoa”, explica o médico.
Ainda de acordo com Nogueira, cada caso tem que ser analisado isoladamente, pois as causas podem ser fungos, bactérias e ácaros. “Mas, do ponto de vista da prevenção, para evitar a transmissão, é necessário prevenir com higiene local e condições adequadas de higiene pessoal. Evitar o aglomerado de pessoas é essencial”, afirma o infectologista.

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